Apenas dias passados, que ficam enfileirados na agenda, anotados com discrição. Mas desses, sempre esses vazios, sorridentes. Só contas, prazos e preocupações. E nem voltei mais aqui, porque não havia o que fazer. Só hoje, florescer.
De que adiantam tantos propósitos e intenções? Os pés no chão buscam a pedra segura, a areia quente. O resto se abstrai, recolhe-se à secundariedade do que não vem mais ao caso.
Dizem que não se deve desenhar coisas soltas. Que é preciso compor, por aí entendendo dispor os objetos harmonicamente no espaço ou algo assim. Só que não. Tem horas que nada se deseja expressar senão que a expressão em si: o risco em si. Se o risco vira uma rosa, é apenas por detalhe. E foi por conta disso, exatamente, que os rabiscos acabaram por se parecer a rosas, assim, jorrando de algum lugar, aparecendo sozinhas, e juro que até o perfume delas eu cheguei a sentir.
Talvez fosse. Não estou certa. Mas alguns elementos constantemente presentes devem fazer parte de qualquer dor: o vermelho e o negro, os rasgos, os traços duros e as figuras monótonas. Mais nada.
Indefinível sensação que se exprime apenas nas cores e nas formas. É puro receio de que as palavras possam me atirar nos lugares comuns. Minha saudade é só minha, tão minha, que tem um desenho feito agora mesmo especialmente para ela, nesta véspera de Natal, que poderia ser Páscoa ou qualquer outra data tão profana quanto. Um desenho para te dizer que o mundo permanece igual ou pior ao que deixaste, e que eu permaneço nele, por ora, vivenciando o que esse hibisco experimenta: estar solta em meio a um vazio imenso, sem suporte algum além da própria cor e da própria fragilidade. Existencialmente só.
Ao ouvir pela primeira vez que existia um pássaro chamado ave-do-paraíso, eu quis saber como ele era. Achei a imagem e confesso que esperava mais de um bicho que, afinal de contas, morava no Paraíso, lugar para onde iriam as pessoas boas, ou seja, gente que não pecava. Depois soube, por meu avô Paschoal, que era só o nome da ave que falava em Paraíso, e que isso não significava tratar-se de um ser sobrenatural, que habitava em lugar também sobrenatural. Tive, então, graças ao nome de uma ave e graças ao meu avô Paschoal, uma iniciação verdadeiramente metafísica, respeitadas as devidas proporções. Compreendi, enfim, perfeitamente bem, que o Paraíso era quase a mesma coisa que o tal faz de conta, coisa que estava ao meu alcance fazer acontecer. Compreendi também que, se havia ou não aves no Paraíso, só depois de chegar lá seria possível saber. Hoje penso que meu avô já sabe como são as aves que existem no Paraíso, pois, naturalmente, é lá que ele deve estar. Eu, to...
De ouvir dizer ainda criança que margaridas eram simples demais. Comparadas a rosas e a orquídeas, naturalmente. Presentear alguém com margaridas seria quase uma gafe. Quanto mais que não cheiravam bem. Ao que me lembro, sabiam a mel. Seja como for, as margaridas têm lá a sua beleza.
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