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Estranho oráculo

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Janelas abertas para um céu aos pedaços, gavetas fechadas que parecem abertas, cortinados indecisos que cobrem e descobrem. Coisas que, estou certa, já habitavam esses papéis que, para mim, jamais estão em branco. Minha sina é essa impositiva tarefa de revelar coisas que estavam todas escondidas no nada. Meio culposamente, sempre apressada, em luta com a negligência do desenho, com a imperícia  dos traçados a pincel, com a imprudência de trazer à tona segredos talvez. Obsessiva ocupação que me toma as mãos e a mente. Depois me pergunto se não faço do papel um estranho oráculo, ao qual consulto para saber de ti, habitando agora o infinito nada. Obsessiva ocupação para reinventar, todos os dias, a tua morte. Porque dela é a culpa de todas as coisas restarem assim tão confusas e inexplicadas. Mistério. 

Humanidades à parte

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 Quando tudo acontece furiosamente, o que está na frente é ultrapassado pelo que está atrás. Como na vida, quando o passado atropela o futuro. Nossa existência é pensada no tempo e no espaço. Tributários dessa prisão dimensional, nosso horizonte é o de uma consciência de si, que a memória ora atormenta, ora ameniza, e que a morte ora consola, ora aterroriza. Humanidades à parte, não admira termos criado tantos deuses e tantos heróis. 

A dois

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 Porque pode ser bom não estar só.

Nem que seja

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 Para que saibas que, por mais tristes que sejam as flores e por mais cinzas que haja no fundo, é possível que haja laços infinitos.  Nem que seja apenas no domínio da arte.  Nem que seja só na minha imaginação.

São azuis

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 Impulso noturno. A tal vontade de pintar. Me entrego aos pinceis e às águas. É o meu jardim de flores inventadas no qual descubro que troncos secos também florescem, mesmo sob céus febris.

Pobre imitação

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 Cores. Gloriosas cores que as tintas só podem pobremente imitar.

Existencialmente só

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Indefinível sensação que se exprime apenas nas cores e nas formas. É puro receio de que as palavras possam me atirar nos lugares comuns. Minha saudade é só minha, tão minha, que tem um desenho feito agora mesmo especialmente para ela, nesta véspera de Natal, que poderia ser Páscoa ou qualquer outra data tão profana quanto. Um desenho para te dizer que o mundo permanece igual ou pior ao que deixaste, e que eu permaneço nele, por ora, vivenciando o que esse hibisco experimenta: estar solta em meio a um vazio imenso, sem suporte algum além da própria cor e da própria fragilidade. Existencialmente só.