Postagens

Não assim

Imagem
Arranquei as flores e joguei no cesto sem limpar a terra que havia no fundo. Porque não daria tempo, não daria mais tempo. Não agora. Não hoje. Não assim.  

Simples exclusão

Imagem
 Pensei que era tarde, que eu estava tão cansada, sem inspiração e sentindo calor. Mas olhei a folha de papel, alisei-a para sentir a leve aspereza que a torna tão absorvente, toquei-a depois mais forte, esperando para descobrir o invisível que já estava desenhado ali. Olhei os lápis coloridos e me deu vontade. É assim que acontece. O cansaço vai embora, começo a riscar e a colorir o que não vejo, não sei, não imagino. Expectadora do que virá, que me esforço por desconhecer. Estranho processo. Lembrei então de que era assim com a gente. Bastava o menor olhar, um toque, um som, e nos entendíamos. Não como eu e tu, mas como um produto dessa dualidade que se desintegrou com a tua deserção. Melhor quando silenciosamente. Do mesmo jeito que me entendo agora com as cores, com o papel e com as letras das palavras. Por uma dessas perversões do espírito, é pelas cores, riscos e palavras que te reconstruo como ausência.  Que faço então? Invento flores amarelas que não são flores, mas si...

Questões de gênero

Imagem
Dificilmente resisto às cores frias. Gosto muito de azuis. Sinalizam que está tudo bem. Um pouquinho de azul que seja, uma pincelada, mesmo escondida, um canto de céu, uma janela aberta, a fresta de uma porta. Os azuis garantem a discrição, o contexto, o sentido: respeitosamente. Mas desta vez só vi vermelhos: escandalosos, alaranjados, indiscretos, promiscuamente mesclados a amarelos. Flores descabeladas, indecorosas e com espinhos. Enfim, flores mulheres, tais e quais elas ficam quando não se coloca ao menos um pouco de azul no fundo, outro tanto nas pétalas, toques discretos ao longo dos caules, tudo como garantia de sua elegância e, é claro, de sua respeitabilidade.

Que flores são essas?

Imagem
São as que saíram da ponta do meu pincel. 

Quem sabe

Imagem
Gavetas transformam banalidades em grandes segredos. Pairam mistérios sobre tudo o que elas escondem.  Por isso amo tanto gavetas. Nelas podemos guardar nossos nadas e nossos espaços vazios: imensos, escuros, onde não chega nem o azul da janela nem a alegria das flores. Pura saudade. Mas as flores estão ali. O cortinado, aberto. A janela também. Porque,  —  quem sabe  — , por ali, junto com o azul, pode entrar o teu olhar. 

Se

Imagem
 Se a gente pudesse mandar embora tantas coisas feias que infestam o cotidiano. 

Outras paisagens

Imagem
 Estávamos lá, bem desse ponto de vista, contornando a lagoa. Caminhávamos absorvidos pelo cenário. Havia música de um violão dedilhado. Saboreávamos cada minuto daquele passeio que durou até o final da tarde, Depois a noite chegou e nos recolhemos. Eram outras paisagens então.