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Espontaneamente

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A saber por que será que as flores se desenham sozinhas. Chamam a si, por escolha própria, as cores e os matizes, expandem-se ao fundo, sugerem o arranjo. Só que suas escolhas não são sempre felizes. Às vezes,  — e isso talvez por uma questão de gênero, hoje tão em moda —, às vezes elas exageram nos ingredientes: muita cor, combinações bizarras, composições que pecam pelo desequilíbrio. —  Esse azul aí tão demais, um roxo fora de hora... eu poria rosa... — Como mulheres, enfim, quando se excedem no rouge. Penso. Mas não encontro explicação. Só o fato: flores se desenham sozinhas. Espontaneamente.

Copas

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Copas. Que as águas o deserto bebe, como mar reverso que absorve e assimila, solve e coagula, alquimicamente, artisticamente.

Evocação

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Porque evocar é imaginar. É perder-se do mundo para se encontrar consigo mesmo. Mesmo que seja assim: de joelhos, mas sempre orgulhosamente.

Gerânios & Janelas

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Gerânios combinam com janelas. Quanto mais se vermelhos, quando parecem acenar aos passantes, como se fossem bandeiras, abanos, mesmo lenços. Vasos com gerânios deveriam habitar janelas, nem que fosse para improvisar boas vindas a quem, por acaso, imaginasse um convite que nunca existiu.

Flores de Banhado

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Sim. Flores de banhado. Simples. E tão inesperadas! Cresciam na minha infância, quando, aos domingos, no sítio, iam parar em um vaso grande, de vidro comum, exposto sobre a mesa da sala. Colhidos por mim e por minha mãe, ela sempre com receio das cobras que gostavam de ficar por perto das águas. Lembro dos caules cortados com uma faca afiada, rente à base, para que ficassem com pescoços bem compridos, mais altos que a beira do grande vaso de vidro. Estranha criação, os copos-de-leite. Sempre arrumados sozinhos, em um vaso só para eles. Tempos idos, perdidos. Tempos de décadas atrás, quando havia sítio, copos-de-leite, infância, e mãe.

Vaidade & Lisonja

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Não duvide. Andam juntas. Daí os aduladores nem precisarem de muita competência para convencerem os adulados acerca dos esplendores e grandezas de suas qualidades. Mas como representar algo tão feio que se pensa belo? Não sei... mas a vaidade deve florescer na cabeça, a boca aberta pronta a soltar tantas palavras, o olhar seco. A forma pode ser inconcludente, é verdade, mas a figura mostra o seu chifre único e linear. Ele serve para que a gente não se esqueça de que a lisonja tem sempre objetivos muito precisos. Agora, acerca de crer ou não crer, vai da vaidade de cada um. Enfim, a bíblica vaidade das vaidades que o Eclesiastes já consagrou.

A timidez das violetas

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Alguém me disse um dia, das violetas, que elas eram tímidas. Eu deveria talvez por aí entender que elas, por pura timidez, se escondiam às vezes sob as folhas. Toma-se isso hoje por poesia, não por verdade. Que a verdade é seca e sem graça, e vai dizer que somos nós que projetamos sobre as pobres violetas os nossos confusos sentimentos.