Nada como um dia como outro qualquer. Em dias como outros quaisquer estamos em paz. Não aquela paz das bandeiras brancas e das pobres pombas com ramos de oliveira. Não a paz marketeira, que se vende como universal, a paz barulhenta que sai em passeatas. A paz não é exibicionista. É discreta e silenciosa. Além disso, a paz verdadeira só existe em um lugar: no fundo da gente mesmo, no silêncio da casa em penumbra, na mudez da mensagem que não chegou. Há paz no esquecimento, no abandono, na inutilidade da dor. Há paz no infinito espectro da tua não existência. Porque há paz para além do desespero, de onde se pode contemplar o trágico, o que não faz sentido nem tem explicação. Paz é simplesmente o papel em branco sobre o qual atiro cores e riscos que fingem ser flores, que fingem ser luzes e janelas sempre abertas para o teu olhar.
Não duvide. Andam juntas. Daí os aduladores nem precisarem de muita competência para convencerem os adulados acerca dos esplendores e grandezas de suas qualidades. Mas como representar algo tão feio que se pensa belo? Não sei... mas a vaidade deve florescer na cabeça, a boca aberta pronta a soltar tantas palavras, o olhar seco. A forma pode ser inconcludente, é verdade, mas a figura mostra o seu chifre único e linear. Ele serve para que a gente não se esqueça de que a lisonja tem sempre objetivos muito precisos. Agora, acerca de crer ou não crer, vai da vaidade de cada um. Enfim, a bíblica vaidade das vaidades que o Eclesiastes já consagrou.

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